Quinta-feira, Setembro 11, 2014

The firefighter needs a writer

Ver os noticiários de hoje leva-nos a todos numa viagem até 13 anos antes de hoje. Onde é que eu estava no 11 de Setembro? Todos nos lembramos bem. Eu lembro-me muito bem. Estava sentada no chão da sala, na minha casa de então, em S. João do Estoril, de pernas cruzadas, com o portátil no colo e o gravador a debitar uma entrevista chatíssima que eu recolhera na véspera. Era suposto transformar aquela entrevista chatíssima num artigo para a revista Focus, e estava longe de consegui-lo. Tinha a televisão ligada e uma série de coisas espalhadas no chão, à minha volta: telemóvel, cadernos, canetas, o caos do costume. Imagino que tivesse a porta da varanda aberta, nessa altura a minha casa tinha uma varanda com vista para o jardim e não distava muito do mar. Espero que tivesse a porta da varanda aberta.

E, de repente, tudo mudou. Aconteceu qualquer coisa na televisão que me fez olhar com atenção, pensei, é um filme, mas não era.

Há pouco tempo dei com um filme, por acaso, na televisão. O meu marido chamou-me a atenção para ele, assim é que foi, eu ainda duvidei, mas comecei a ver. Estava já a preparar-me para escrever aqui que é daqueles filmes que devia ter sido uma peça de teatro mas, graças ao Google, descobri que foi mesmo uma peça de teatro, em primeiro lugar, escrita pela jornalista Anne Nelson e protagonizada por Sigourney Weaver e Bill Murray. Chama-se, no original, The Guys.

O filme tem o mesmo nome e a mesma protagonista, mas o papel principal masculino passou para as mãos de Anthony LaPaglia.

PicMonkey Collage

He’s a fire captain, and he just lost most of his men. He’s got to give the eulogies. The first one is on Thursday. He — can’t write them. He needs a writer.

É assim que Joan e Nick se conhecem. A escritora que ansiava por poder contribuir para ajudar a cidade a recuperar dos atentados, mas que não sabia como (A friend of mine went to volunteer. Plumbers and carpenters first, they said. Intellectuals to the back of the line), e Nick, o bombeiro encarregue de discursar no funeral de seis dos seus homens, que não conseguia encontrar duas palavras seguidas que lhe parecessem apropriadas.

Well, I said. When was the last time I heard someone say they needed a writer? 
The firefighter needs a writer.
I called him. He lived down the block. Come now, I said. I have a few hours. My sister took the baby out for the day.

E o que vemos a partir daí é costura de palavras por medida. Se alguém tiver dúvidas acerca do que eu faço, veja este filme. Não espero que provoque noutros a reacção que provocou cá em casa, claro. Eu vi-me ali retratada e isso mexeu bastante comigo.

Graças à costureira de palavras, eu sinto, finalmente, que aquilo que eu sei fazer serve para alguma coisa.

Obrigada por isto.

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Terça-feira, Setembro 2, 2014

Rentrée

Procurei estar o mais afastada possível do teclado durante as férias. Ainda assim, fui respondendo a alguns emails que foram chegando, e que me encheram rapidamente a agenda de Setembro.

E hoje, no segundo dia de trabalho após ter ido a banhos, eis que recebo uma mensagem tão doce que não posso deixar de partilhá-la aqui. A Vera pediu-me para escrever o seu texto de apresentação para o novo site que lançará dentro de dias. Assim que estiver no ar, eu divulgo, até porque acredito muito no trabalho da Vera, depois da nossa longa conversa telefónica.

«A Marta tem um dom, a sério!
Como é que alguém, que não nos conhece de lado algum, nos capta a essência desta maneira??!
GOSTEI MUITO, aliás ADOREI!
Confesso que as lágrimas começaram a dar o ar de sua graça! Neste momento se estivemos juntas, dava-lhe um abraço mesmo muito apertado!»

E assim, a sentir-me abraçada, prossigo para outro campo. Desta feita, o texto de votos de casamento da L., que confessa que o F. fez dela uma pessoa muito melhor.

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Quinta-feira, Julho 31, 2014

Bodas de papel

A Márcia e o marido comemoraram, há dias, as bodas de papel. Não sei se sabem que todos os aniversários de casamento têm uma figura correspondente. E ao primeiro corresponde o papel.

O casal vive na Suíça mas tratámos de tudo à distância, sem quaisquer constrangimentos. A Márcia já era cliente da Chapéu de Papel desde o casamento e pediu à Marisa e à Carina para a ajudarem a dar forma ao presente que idealizou para oferecer ao Paulo, o seu marido. E, através da Chapéu de Papel e de outro trabalho em que as nossas artes se juntaram, chegou até mim.

Conversámos, eu costurei o texto, e quando lhe enviei a minha primeiro proposta a reacção foi esta: «Simplesmente especial! Adorei! Encaixa tão bem… ia mesmo dizer que parecia que tinha sido feito para nós, mas o engraçado é que foi. Marta, obrigada.»

Chapéu de Papel desenhou e imprimiu e tudo chegou às mãos da Márcia, na Suíça, a tempo e horas de assinalar a data. E é, mais uma vez, graças às fotos que a Marisa e a Carina tiraram ao resultado final que eu tenho algo de concreto para vos mostrar.

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É muito engraçado como o destino se encarregou de juntar o meu trabalho ao da Chapéu de Papel, sem que nós tenhamos tido nisso qualquer influência.

Foi, mais uma vez, um prazer!

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Terça-feira, Junho 17, 2014

Muitos parabéns, David

O David é um menino que tem um lugar muito especial no coração do João, um amigo que tem um lugar muito especial no meu coração. Quando o João pediu ajuda à costureira para oferecer uma prenda muito especial ao David no seu 7º aniversário, eu pensei, pensei, e cheguei à conclusão de que também precisava de ajuda. Da Tinimini.

Assim, pedi à Célia Fernandes que desenhasse um Tini David e depois à Susana Esteves Pinto que fizesse com que as minhas palavras se harmonizassem com a ilustração.
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Obrigada, Célia, obrigada, Su. O David adorou!

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Sexta-feira, Junho 13, 2014

Amor em papel

A M. contactou-me porque queria oferecer um presente especial ao marido no aniversário do casamento, algo que dissesse o quão estava feliz por estar ao seu lado e que reforçasse todos os planos e projectos que ambos têm para o futuro. Foi um prazer enorme conhecê-la. Escrevi um texto e a M. pediu às talentosas Marisa & Carina, mais conhecidas por Chapéu de Papel, que lhe dessem uma forma bonita.

As fotos são da Chapéu de Papel e só posso imaginar a cara do marido da M. ao receber um presente tão pensado, tão sentido, tão cuidado. Terá sido, certamente, um momento muito feliz.

 

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Domingo, Junho 8, 2014

À amizade

A S. contactou-me porque queria oferecer um presente muito especial à sua melhor amiga. Na verdade, tratar-se-ia da oferta de uma família para a outra, uma declaração de amizade, um marco de um dia muito especial, e também um prenúncio de despedida, já que, em breve, muitos quilómetros se interporão entre eles.

Eu costurei o texto e a Mariana Rebocho ilustrou-o.

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Domingo, Maio 25, 2014

Faço minhas as palavras

… de Alexandra Lucas Coelho, no post intitulado ‘Vamos escrever cem vezes: escrever é trabalho’. Todas elas, de uma ponta a outra. Peço-vos que leiam e que partilhem. Será assim tão difícil fazer passar a mensagem?

«Uma amiga escritora contou-me que na primeira residência de escrita que fez na Alemanha havia um aviso que dizia: sempre que aceitar trabalhar de graça está a prejudicar outros. É isso, colegas, camaradas, escritores, estagiários, futuros jornalistas, ilustradores, desenhadores, fotógrafos: não trabalhem de graça para o mercado. O mercado que não paga o trabalho, ou não o paga decentemente, baixa a fasquia, apela à falta de alternativa, a quem precisa de ganhar curriculum. Trabalho mal pago não vai ser bom, bom trabalho leva tempo.»

O texto completo, aqui.

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Quarta-feira, Maio 7, 2014

Desafinados

«Ninguém quis Susy apesar dela ter pedido». É este o título de uma notícia do JN, que dá conta do insucesso da participação portuguesa no Festival Eurovisão da Canção.

O título é péssimo em várias frentes:

. Dela? De ela. Não há contracção se o pronome pessoal desempenha a função de sujeito.

. Ela? A cantora, talvez, a artista, qualquer coisa mais bem educadinha. Assim, teríamos ‘de a cantora’.

. Dela ter pedido o quê? O ter pedido, no mínimo. Ficamos então com ‘de a cantora o ter pedido’. Logo, ‘Ninguém quis Susy apesar de a cantora o ter pedido’.

Ainda mau, mas já menos grosseiro.

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Sexta-feira, Fevereiro 21, 2014

Falta de atenção

Ontem lia-se, na página oficial de uma casa editora e livreira de peso em Portugal, que seria bom se ‘houvessem’ determinados objectos por aí. Alguns leitores repararam e comentaram; a administração da página assumiu o ‘lapso’ e corrigiu-o.

Hoje, a mesma página brinda-nos com um teaser àquilo que imagino ser, pela imagem que o acompanha, o lançamento de um policial ensopado em sangue. Nada a apontar à imagem. Mas sobre ela pende um “Tenham atenção, muita atenção!”, que me levou a questionar se estaria a dita casa editora e livreira de peso a abraçar uma nova técnica de marketing sorrateiro, destinada a premiar os leitores mais atentos aos pontapés na gramática. Se assim for, eu candidato-me.

Não se tem atenção. Tem-se atenções se se é atencioso, tem-se em atenção diversos factores importantes para uma equação e presta-se atenção se se está atento. Para obter o efeito de interjeição aqui procurado, escrevia-se apenas ‘Atenção, muita atenção!’ – ou então assumia-se a inspiração anglófona e optava-se pelo batido ‘Tenham medo, muito medo!’

“A palavra atenção é, sobretudo, usada em expressões mais ou menos fixas, como «chamar a atenção de alguém para alguma coisa; «ter em atenção algo»; «dar/tomar/prestar atenção a algo ou alguém». Pode ainda integrar locuções como «à atenção de», «em/com atenção a».” in Ciberdúvidas.com

Nesta linha, e para que o administrador da dita página não se sinta sozinho no barco, não resisto a reproduzir um título que não tem ponta por onde se lhe pegue. E lá está ele, publicado, há dois anos e meio:

“Cinco dicas a ter atenção antes de comprar um carro”

Bastava ali um ‘em’ entre ‘ter’ e ‘atenção’ para compor a coisa. Mas isto não é gralha nem esquecimento (nem desatenção). É desconhecimento.

Tinha eu ficado pasma com um anúncio, publicado no carga de trabalhos esta semana, a propor a contratação de um copywriter que soubesse escrever sem erros. Eles lá sabem…

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Segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

A memória de Philane Dladla

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“… lembrei-me de A Memória de Shakespeare, aquele conto de Jorge Luís Borges que surgiu de um sonho que o escritor argentino teve num quarto de hotel de Michigan, quando viu um homem sem rosto que lhe oferecia nem a fama nem a glória – que teria sido trivial -, mas sim a memória do escritor, a memória da tarde em que ele escreveu o segundo acto de Hamlet.”

 in O Mal de Montano, de Enrique Villa-Matas

 

Lembrei-me, de facto, porque o que Philane Dladla faz é ganhar a vida a partilhar com os automobilistas que passam por ele as suas memórias da leitura de determinada obra, devidamente balizadas pelo seu juízo crítico. Se a recensão for apelativa, é provável que venda o livro.

Trata-se de um jovem sul-africano que decidiu abraçar a actividade livreira com um twist, após ter herdado uma significativa biblioteca da mãe. A imprensa chama-lhe ‘Imperador de livros’, num trocadilho com a morada onde podemos encontrá-lo: Empire Road, Braamfontein, Joanesburgo.

Há qualquer coisa nesta capacidade de criar algo de absolutamente original e único com recurso, apenas, à própria matéria cinzenta, que me enternece.

 

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